Recomende um perfume: Em Busca do Perfume Perdido, parte 2

[A parte um deste post está aqui]

Apresentei para a vendedora a intenção da visita e começamos pelas melhores apostas, Eau Fraîche e Diorella, cada um no seu papel. Ana Dora cortou o primeiro na hora, para meu discreto desespero — era minha melhor aposta. Diorella foi promovido a um precioso lote de pele no braço direito. Seguimos com Baiser Volé eau de parfum (Cartier), um belo lírio inteiro, flor, pólen e caule, pensando na relação com o Gio. Virginal demais. “É muito menina, sou uma senhora, não posso usar isso.” Como discordar?

Sierra Nevada Peaks, Ana Dora

Ana Dora consulta o Diorella no braço e diz que é doce. Estranhei a palavra, açúcar não é uma uma primeira impressão do Diorella. Importava é que não era por aí, concordei e seguimos: próxima prateleira, Chanel. Cristalle provoca uma fagulha — O Eau Folle era isso, muito verde, como rolar na grama — e também é promovido ao braço. Talvez eu tenha me apegado demais ao couro e de menos ao verde? E há couros e couros.

Por teimosia apresento Pour Monsieur, a essa altura já sei que é muito austero, mas serve de alguma coisa: Ana também diz que é doce. Doce? Estava levemente amargo, untuoso, aquela cor de musgo cozido que é a definição do chypre. Daria para dizer caramelado mais pela textura colante que pela doçura. Suponho que seja isso, que é o denominador comum com Diorella.

deep in woodland

Num esforço de reportagem resolvemos ir a loja da Chanel que vende a linha exclusiva, quis mostrar mais um floral grande, já atirando para todos os lados. No caminho cai o Cristalle — Sumiu! Tem que encostar o nariz para sentir! De fato não é um perfume de grande sillage, o nosso rastro, essa palavra que não consigo gostar. Na loja a coisa fica animada e mais dois conquistam terreno: Beige e 31 Rue Cambon, no alto de cada um dos braços. Beige é um buquê de jasmim e heliotrópio, uma flor miúda. Em perfumaria tem cheiro de amêndoa, com um aspecto cremoso próximo da baunilha. O efeito do perfume é um grande floral com frescor, o heliotrópio entra e sai de foco, achei tudo muito bonito quando conheci, numa outra ocasião. O 31 é barroco, rendado, suntuoso, me deu a impressão de ser “à maneira antiga”, como o N°5 por exemplo, denso e cheio de camadas — e não consegui ir muito além pela falta de energia físico-nasal.

Ana Dora me deu uma carona e fomos papeando, fiquei de conhecer o grupo em que estuda gravura. A certa altura descartou o Beige mas seguiu gostando do 31 Rue Cambon. Nos despedimos no carro, disse para ela acompanhar as fitas olfativas do que tinha gostado mais e atentar ao 31. Ainda parei para um lanche e fazer notas. Chegando em casa me espera uma mensagem da Dora no Facebook:

Lembra do 31 da Chanel? Virou um monstro, me sinto no filme “A Pequena Loja dos Horrores”, forte demais, domina o ambiente, não sobra espaço pra mim.

Rain Garden, Ana Dora Partos

Participe da conversa:

  • Qual perfume você gostava e foi descontinuado? Conseguiu substituir? Por qual?
  • Que perfume você sugeriria para Ana Dora no lugar de Eau Folle? E no lugar do Gio?
  • Ciça

    Eau Folle, Eau de Patou, F de Ferragamo, Donna de Roberta de Camerino. Perfumes para ficar na alma. Perfumes madeleines. Usei eau folle durante os meus anos dourados, sabe o que significa isso, né? Jamais encontrei um substituto de igual frescor, mas acabei encontrando alguns outros, não muitos, prá chamar de meu. Ana Dora não desista, mas te digo, na perfumaria de griffe, dificilmente encontrará, pelo simples fato delas usarem um fixador muito forte. Eau folle dava até para beber.

    • dorothy

      Quem conheceu os Eaux … como substituir ? voce esta certa Ciça, vai ser dificil

    • Ciça, essa do fixador é uma ótima pista, o eau folle era num pique mais colônia, leve e ligeiro, que perfumão?

    • ana dora

      Vocâ acertou na mosca Ciça: perfume madeleine! ou como eu brinquei com o Dênis: À la recherche du parfum perdu…

  • Bem, eu acho que se tem um Chanel exclusivo que talvez pudesse agradá-la, que tem cheiro verde, é o Bel Respiro. Quanto ao Armani Gió, alguma coisa me diz que talvez a sua amiga Ana vá gostar do Boucheron feminino tradicional.
    Leva ela para conhecer as colônias Sisley também. Quem sabe uma delas não se encaixa um pouco nesse perfil olfativo que ela procura?

    • bah, esqueci do Bel Respiro, bem lembrado! pode ser que tenha a ver, henrique, obrigado. os outros não conheço, vou pesquisar.

  • Quanto ao Diorella, sua amiga não está enganada não, ele tem uma dimensão doce sim, frutal. É parte da idéia original do Roudnitska, o contraste entre o aroma floral, carnal, bem sensual, a faceta cítrica, e o aroma frutal doce e suculento. Não sei se o Diorella atual continua assim, mas o tradicional é desse jeito, começa doce, fresco, cítrico, floral. É um perfume fantástico, cheio de nuances, inteligente, cativante.
    Acho que o Cristalle deve ter sido reformulado. Tenho um EDP antigo dele, e é um perfume que fixa muito bem. Tem inclusive aspectos em comum com o Diorella com relação a parte floral, só que com um cítrico mais sóbrio e sem um aroma frutal.
    Se ela achou o No 5 muito denso, recomendo a versão Eau Premiere, que é mais delicada, mas muito bela também, de uma abertura cítrica elegante, luminosa, fresca, em contraste com uma base de sândalo deliciosa. Ou recomendo o No 5 em extrato também, os perfumes da Chanel costumam ser excelentes em suas versões extrato.
    Falando em Chanel, escrevendo agora me ocorreu que ela talvez possa gastar também do Chanel No 19.

    • henrique, nós não testamos o n5, veja lá, falei dele como comparação de estilo com o 31 rue cambon. Cristalle testamos o EDT.

  • Gostei da aventura toda e me fez lembrar da minha mãe, que apesar de toda a coleção de perfumes não desgruda do….Calandre! Ela usa desde que era jovem.

    • Edu, a Dora chegou a comentar que usou o Calandre, pelo visto é um desses que pegou a geração inteira.

  • Ontem palpitei no Vent Vert. Hoje vou de First (Van Cleef & Arpels); Balmain de Balmain; Ma Griffe, Carven; Caleche, Hermès, e me atreveria a apresentar o portento Habanita pra ela!!!

    • o First acho que envelheceu tão mal, tem a mesma idade do Cristalle e imprime muito mais velho. não gosto não. caleche faz tempo demais que testei, o restante nao conheço.

    • Silvia

      Balmain ainda fabrica o vent vert ? Nunca mais encontrei . Amor de infancia.

      • Silvia, o vent vert ainda é fabricado sim, mas só vendido no exterior. pelo que li já foi muito alterado e se parece pouco com o antigo, que nao conheci. o novo experimentei uma vez e achei que “envelheceu” mal, cheirava a muito antigo.

  • Tô aqui torcendo pela Ana Dora, viu? Sei o que ela tá passando. Aliás, eu quase sei. Tem/tenho uma penca de descontinuados que me fazem falta. Em compensação, tenho outra penca (ainda) em produção que me seduz. Ser infiel me ajuda. Entre os falecidos, choro pelo Eclix, pelo Parfum D´Été e pelo Liberté.

    • É tanto perfume produzido, mas tanto, que nao consigo deixar de pensar que pra cada grande perfume que foi descontinuado tem um outro incrivel meio escondido atrás da cortina, esperando para ser descoberto.

      • Boa! Vou começar a pensar assim. Anima um pouco, como não?

  • talvez eau du sud ou ninfeo mio, annick goutal… apenas talvez.

    • manah, obrigado pelas sugestões! vc sabe onde é possível testar os annick goutal em são paulo? a sephora vende online mas nao tem na loja.

  • Pingback: Um perfume para Ana Dora, parte 1 | 1 nariz()

  • Elisabete Rocha Pagani

    Adorei a gravura de jacarandá florido da Ana Dora, aroma lilás!

    • ana dora

      obrigada Elisabete!

  • Ciça Azevedo

    Oi Dênis, aqui em casa tem alguns Annick, lembra? O “meu” Passion que uso desde 1997 e q agora compro a granel na Merci. Tenho tb p festas Ce soir ou jamais e tb Eau de Charlotte para o inverno paulistano. Em todo caso até pouco tempo Annick era vendida na Baccarat do Iguatemi a preços altissimos, não sei se continua.

    • Ciça, to bem esperto com essa venda a granel na Merci, to querendo pesquisar antes para já chegar com uma direção. vou passar na sua casa e checar no iguatemi, obrigado pela dica!

  • ana dora

    Adorei a 2ª parte do post Dênis! Realmente escolher uma fragrância em um dia não é fácil. Ainda mais quando se tem na memória um perfume-madeleine e outro poderoso e presente!
    Mas a tua companhia foi o mais importante. Você é um perfume radiante e de notas marcantes. E que fixa na memória de forma inesquecível!

    • Dora, que beleza, obrigado! foi muito legal nosso rolê, vou te procurar pra gente bolar como seguimos daqui.

  • Martha Coeli

    A minha fragrância perdida é “Eau d’éden”da Cacharel. Nunca encontrei nada semelhante!
    Alguém indicaria?

    • Martha, desculpe pela imensa demora. Mas encontrei o Eden de Cacharel numa viagem — a marca parou de ser distribuida no Brasil mas ainda existe no exterior e o perfume continua ótimo. E é barato! eu consegui uma amostra, vou resenhar em breve.

  • Isac Donisete

    Nessas de procurar perfume de incenso trombei com Éden, achei diferente, não sei se gosto, mas não acho nenhum pouco ruim, seria ele desajustado para um homem? O preço também não é dos melhores para 30ml (apesar de ser um frasco vintage). Só que o bicho ficou na minha cabeça, tá aqui martelando e martelando… não seria um blind, mas das anticonvencionices esse eu acho o mais anticonvencional… O que acha Dênis? Me fale algo sobre ele, se o conhece… quero perfume novo, pra ontem… rsrsrsrs… desde já agradeço!
    P.S.: A procura pelo incenso não anda bem, não encontro NU, e não me dei com OPIUM… e SPICEBOMB não sei se é o caso!

  • Maria Aparecida Vieira Souto

    Minha fragrância perdida é “Valentino” de Valentino. Eu adorava.Usei de 1988 até há alguns anos atrás, +/- 2009, quando não o encontrei mais para comprar. Soube que a marca foi vendida e sua fabricação foi descontinuada. Há algum semelhante?

    • Maria Aparecida, eu não conheço nenhum. Vamos ver se algum leitor se manifesta.

  • Débora Ferraz

    Tenho uma história parecida. O meu era um baratinho que se chamava “Love Tears” do boticário. São mais de 10 anos frequentando lojas de perfume com pranchetas e etc. Até entrei em contato com a marca que disse: A composição era: Saída: bergamota, flores brancas e melão; o corpo: Jasmin, Lírio do vale, Rosa e Papaya e o fundo: Almíscar, Baunilha, Âmbar e Cedro.

    Eu cheguei a me conformar, por um tempo, com o Black xs, mas era um caso de amor e ódio. Eu o detestava por umas três horas. (Só que, sempre, ao final, a baunilha dele me apaixonava) e ninguém aguenta viver tendo que enfrentar 3 horas de horror sempre antes de chegar ao paraíso. E às pessoas ao meu redor também não suportavam essas horas de saída (“Mas que perfume forte, invasivo, doce e chato”, ao que eu dizia: paciência. Jajá ele vai mudar).

    Recentemente descobri esse site, o Fragrântica, e fiz uma tabela reunindo, pelas notas, perfumes que poderiam lembrar o meu tão perdido “Love Tears”. Descobri, por exemplo o Hipnotic Poison, mas ainda faltava nele algo… uma frutinha, talvez… E mesmo o Nativa Spa de Ameixa, que lembrava vagamente, mas com uma interrupção chata de alguma nota fortíssima, antipaticíssima.

    Um dos perfumes que mais se assemelhavam pelas notas era exatamente esse Gió, seguindo a busca por notas do Fragrântica, mas descobri que também ele não existe mais.

    E outro chamado Escape, da Ck, que odiei de cara. Já era frutado demais. E piorava a cada segundo.

    Alguém ajuda?

    • Débora, eu não conheci o Love Tears, é impossível indicar semelhança sem conhecer. Acho que não consigo te ajudar.

    • crica

      Se alguem encontrar a resposta, tbm quero saber! Eu amo aquele perfume! Ainda tenho o frasco q de vem em quando eu abro p relembrar bons tempos… q nostalgia…

    • Raquel

      Eu tambem sempre em busca de algo que me remeta áquele cheirinho maravilhoso… me deparei com o lançamento da O Boticário, Cats, nao é igual, mas me lembra muito….

    • Michele

      Já descobriu? Amo o love tears queria algo parecido 😿

  • Italo Pereira

    Sou órfão de dois Yves Saint Laurent, Opium edt feminino versão antiga e Nu edp, que mesmo tendo sido relançado não chega aos pés de seu antecessor, a busca do oriental perfeito, que arda, queime, seja místico, sujo e insano no que diz respeito a quantidade interminável de notas de sobreposição, nunca achei nada parecido nem no nicho da perfumaria para chamar de meu, no que diz respeito a oriental.

    • Italo, não conheci o Nu na forma original, mas gosto dos dois perfumes nas formulações atuais. Mesmo sendo bonitos nunca resistem a comparação com o que nos fisgou… Talvez vc consiga achar um Opium antigo em sites de leilão?

  • Nicole

    Bvlgari Pour Femme – EDP, será?

  • Sergio Provasio

    Acabou por aqui?! Gravem uma novela disto porque ficou o maximo, rsrs. Ela achou o perfume substituto?! Mas a melhor parte é como ela se revela através do perfume “mto virginal, eu sou uma senhora” ou uma espécie de “briga” entre identidades com o 31 da Chanel, “não sobra espaço para mim”, amei amei amei.

    • hahaha Alô, Globo! Estamos aqui com um roteiro!

      Perfume é um ótimo jeito de se conhecer e de conhecer alguém. Sergio, ela ficou com um figo da linha Acqua di Parma. Lembro que no começo da investigação ela contou que o Giò lembrava um por do sol, um fim de dia na Sicilia, e AdP trazia a mesma sensação.